Iniciamos na Quarta-Feira de Cinzas uma Campanha da Fraternidade Ecumênica sobre economia a serviço da vida e do desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade. “O tema do desenvolvimento coincide com o da inclusão relacional de todas as pessoas e de todos os povos na única comunidade da família humana, que se constrói na solidariedade tendo por base os valores fundamentais da justiça e da paz”, afirma Bento XVI na Encíclica Caritas in Veritate (54).
Embora milhares de brasileiros tenham saído do estado de pobreza na última década e se propague que o Brasil vai estar em 2020 entre as cinco maiores economias do mundo, nosso país continua apresentando enorme desigualdade na distribuição de renda e elevados níveis de pobreza. Em 2007 de acordo com estatísticas do Inst.de Estudos do Trab. e Sociedade (IETS), existiam no Brasil 10,7 milhões de indigentes famintos e 46,3 milhões de pobres, sem acesso às necessidades básicas (TB/CF 43-44).
A era da globalização não diminuiu as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas. A ONU prevê para este ano com a Crise Global, 100 milhões de pessoas passando fome devido à perda de empregos e redução de ganhos. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) fala em 1,02 bilhão de famintos devido à crise alimentícia de 2006-2008 e ao aumento dos preços dos produtos alimentícios básicos.
O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população, disse Eric Hobsbawm no Forum WP de Alexandria. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas.
Não basta crescer no volume global de recursos se os pobres não chegam a alcançar as condições a que todo ser humano tem direito. No Ceará, quase 01 milhão de pessoas vive em extrema indigência: são 991.120 pessoas vivendo com 1/8 de salário mínimo por mês. Representam 11,86% da população do Estado que ocupa o 3º lugar na lista da indigência no país (Bahia:1,274 milhão e Maranhão:1,078 milhão de habitantes na indigência.TB/CF 51).
A expansão do agronegócio e outras atividades econômicas a serviço de fortes interesses econômicos, utilizam os recursos naturais de forma irresponsável, terras indígenas são tomadas. Na raiz da desigualdade social está a concentração de terras rurais nas mãos de poucas famílias ou empresas: de acordo com o INCRA 3% do total das propriedades rurais do país são latifúndios e ocupam 56,7% das terras agriculturáveis (TB/CF 52-54). A área ocupada por S.Paulo e Paraná pertence aos 300 maiores proprietários rurais, enquanto 4,8 milhões de famílias estão à espera de chão para plantar. Em Rondônia, segundo dados do IBGE 45% das riquezas do Estado estão nas mãos dos 10% mais ricos, enquanto os 60% mais pobres agregam um montante apenas de 17,65% da renda: riquezas e desigualdades evidenciadas pela concentração de renda.
Uma pessoa cristã não pode olhar para o mundo e aceitar que continue a vigorar uma política de sobrevivência somente a serviço dos privilegiados pela riqueza. Muito menos a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte. “A pobreza não é uma maldição inevitável. Ela é produto de decisões e de políticas humanas. Para enfrentá-la requerem-se mudanças das regras do jogo internacional e nacional” (Bernardo Kliksberg). A pobreza também não é só uma questão política, ela é um clamor que mexe com a proposta religiosa.
A crise da economia global e o fracasso de Copenhagen sobre as mudanças climáticas são sinais evidentes do desiquilibrio do sistema econômico e de recursos naturais que se esgotam e não são renováveis. Assistimos no campo econômico os países ricos exportando a produção em regiões onde o custo do trabalho é menor, incentivando o consumo com recursos públicos nos sistemas em crise (D.Bossi). Já no campo ecológico vemos à mesma negação do limite, pela busca e abertura de novas fronteiras de exploração, a revisão dos limites de reserva legal, o desrespeito das condicionantes nos licenciamentos ambientais, cada vez mais numerosos, rápidos, com estudos de impacto ambiental preparados em poucos dias; os novos projetos de mineração e produção de energia, etc..
O Prof. Manfredo Araújo de Oliveira(UFC) e Presidente da ADITAL, ao escrever sobre “Outro Mundo é possível” cita Jürgen Habermas, um dos grandes intérpretes de nossa época, que considera a situação de nossas sociedades muito preocupante, pois, uma vez que se perdeu a possibilidade de articular, a partir da razão humana, um sentido global para nossas vidas, parece que nos tornamos incapazes de explicitar uma orientação fundamental para nossas existências. O que nos leva à renúncia, a uma interpretação rigorosa de nossa realidade e, mais grave ainda, a um desprezo por qualquer tentativa para transformá-la. Tudo parece conduzir à afirmação básica de que não há alternativas para nosso mundo.
No entanto, segundo F.Houtart, propostas alternativas devem ser consideradas em dois níveis básicos. O primeiro é o nível das utopias entendidas como projeto mobilizador. Aqui emerge a idéia de uma nova lógica para reger a produção, o que deve levar a novas regras para o jogo econômico; o nível das utopias, no entanto, deve traduzir-se em programas, o que constitui o segundo nível. No plano econômico já emergem algumas alternativas importantes como a reorganização do processo de produção e de distribuição; estabelecimento de limites à lógica mercantil, o que implica a construção de uma economia social que abra espaço para muitas soluções, inclusive para a propriedade dos meios de produção pelos produtores; eliminação dos obstáculos ao desenvolvimento das economias dependentes..
A humanidade está despertando para uma nova existência de solidariedade mundial, que exige uma concepção planetária do bem comum para dar início a outra civilização. É necessário buscar uma nova ordem econômica para uma distribuição mais eqüitativa dos bens da terra. “ Sem formas internas de solidariedade e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir plenamente a própria função econômica” (CV 35).
O conceito de economia solidária engloba vários tipos de organização, como associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, que realizam de atividades industriais a rurais, de produção de bens a prestação de serviços, finanças solidárias e comércio justo. Para Ademar Bertucci, economista e assessor nacional da Cáritas Brasileira, a Economia Solidária vive um momento muito especial. E a Cáritas também faz parte disto. Com a implementação dos Projetos Alternativos Comunitários (PACs), a organização ligada à Igreja difundiu um modelo de fazer comércio de forma solidária, primando pelo empoderamento das comunidades pobres, contribuindo para formas de organizações coletivas e sustentáveis.
Gostaria de concluir citando o exemplo que merece ser seguido, de muitos empresários cristãos no Brasil e no mundo que aderem ao Projeto de Economia de Comunhão do Movimento dos Focolares de Chiara Lubich. A característica básica das empresas que a ele se associam está em ajustar os princípios de eficiência, produtividade e lucratividade, da teoria econômica e das teorias organizacionais, a princípios contidos nos evangelhos e na doutrina social da Igreja Católica. A Economia de Comunhão consiste em direcionar a empresa a constituir-se como comunidade de pessoas altamente responsáveis e motivadas, voltadas à produção de bens e serviços, a usar os lucros em vista de uma sociedade solidária aos excluídos, aos marginalizados, enfim, aos necessitados. |